Da montra nascérom mundos impossíveis

montra_ourense

Lembrei há pouco que, canda ao jardim proibido do magnólio, medrei onda outro espaço quotidiano que muito cedo me situou na banda da ausência, do que nom se tem, da sensaçom de injustiça, na carência.

Falo da montra da tenda de joguetes que havia onda a frutaria dos meus pais, lugar que lembro olhar cada dia através do vidro onde deixei tantas vezes as pegadas das maos, cenário onde se concentravam os sonhos dos raparigos da zona.

Estavam os expositores principais que davam à praça, onde se acumulavam as novidades e se mudava mais a miúdo a exposição, interrompida cara à Semana Santa por umha ampla panóplia de figuras religiosas e candeeiros. O maior era o espaço dos clicks, dos transformers, das grandes caixas. Outro, mais pequeno onda a porta ficava para balões, carros de joguete, bonecas soltas, complementos. Logo estavam as sombrias montras laterais, onde ficárom durante anos as mesmas caixas, a se deteriorar e que já conhecíamos de memória. Lá falávamos com como seria jogar ao Palé ou ao Sinai, tantas vezes vistos e nunca, quando provados, a altura dos sonhos.

Os desejos tomavam aquela forma, a que tínhamos à mao. O monopatim que eu queria era o que estava na montra. Quando polo Natal chegavam os agasalhos trabucados (os clicks ianques no canto dos que tinham o jeep ou mais um Transformer aviom e nom o Dinobot) acabavam por se aceitar e nom se mudavam, quiçais porque também faziam parte do mesmo território de anceios.

Na tenda entrávamos pontualmente, a mercar algum presente polo aniversário ou quando havia que agasalhar a outro. O interior era, como nom, um acesso ao paradiso, com recantos que nom sabíamos onde poderiam chegar e tesouros cheios de promessas. Lembro várias noites, nas que nos meus sonhos o estabelecimento ainda se ampliava, feito um labirinto de maravilhas.

Era frustrante olhar cada dia como parte da paisagem todos aqueles joguetes. Como o jardim do magnólio, conformava aquela tenda um espaço vedado de desejos insatisfeitos que outros sim chegavam a cumprir (embora ninguém abondos, ninguém todos, já entom o sabíamos). A fronteira que criava aquele vidro entre o meu mundo e o da plenitude de joguetes, só salvável com os cartos, deixou-me aquela certa ideia de carência e de injustiça.

Também contribuiu, agora me decatei, a afortalar em mim esse anceio de paradiso, a ter essa sensaçom de que há um jeito, um local, um estado no que existe a plenitude aí mesmo à beirinha. Que apenas há que traspasar um vidro, um muro, atrever-se a percorrer um caminho, mas que se pode chegar.

Possivelmente também me tenha levado à afeiçom por sonhar, jogar, ler, lugares fantásticos. Afinal pouco menos reais resultam do que o espaço de dentro da tenda, e partilham com ele essa certa sensaçom como de perda, do inalcançável. A mesma com a que se foi configurando aginha o passado (feito um país estranho, já o di o Lowenthal), também um espaço fora do alcance. Também puido vir de ai a querência por descobrir e me apropriar de novos lugares onde puidesse habitar a plenitude, a ánsia por procurar e conhecer.

E, como nom, de ai vem o meu amor por olhar montras onde se amontoam sem muito sentido cousas de cores que semelham levar anos aí perdidas, como os bonecos que assemelhavam aguardar ao meio-dia, na praça deserta, o agarimo das olhadas dos cativos.


(Fotografía dumha montra na estaçom de autocarros de Ourense)
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A sombra do verao

O verao na cidade ficou marcado por aqueles momentos,  ao meio-dia, a ir da tenda ao piso. Desde essa infáncia, a sombra no verao é um arrecendo a pedra que fica no escuro. Independentemente do lugar, a referência para essa sensaçom é a pedra fresca como toda paisagem no coraçom do casco histórico. Lá ficava o alívio de anacos do mundo que livravam do calor. A luz mais viva restringida aos andares mais altos das casas, ao reflexo do sol na janela a construir alfabetos efémeros. Davam-se as misturas do café que saía do bar co vinho dos bocois (apenas nos primeiros anos, logo se perdeu). Daquela era também arrecendo a cigarro ou charuto do começo da tarde. As vozes adquiriam um eco particular com as ruas baleiras, o ouvido sempre acompanhado dos diferentes televisores que emitiam sons desde locais e vivendas, espaços que só se podiam imaginar escuros ante a luz, sempre indireta,  que cobria tudo. A lixívia e o sabom basto, de limpar os solos,  participavam do conjunto,  ao igual que um lene arrecendo a gasolina dalgumha moto a passar. A luz marcava, como marca agora, novos recantos que olhar na mesma paisagem. Ervas, perfís, engurras na pedra. Chegar a casa supunha atopar o fresco do portal,  sempre em penumbra,  e subir sem acender a luz como umha ousadia,  pequena sensação de liberdade de rachar o estabelecido.

Naquele momento a vida prometia estar fora, nalgures. Eu nom sabia como a apanhar e seguia para a casa, sonhar onda os livros,  a TV,  a avoa.

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Os tempos que venhem

O arrecendo das torradas do almoço já vem do passado no próprio momento no que chega. Lembra outras datas, coberto o miolo do pam dumha marmelada de tempos frios e repousados, como tirados da despensa.

O agora mantém-se desde há já um certo período inçado de cousas pretéritas. Os ecos que achega cada instante multiplicam-se até o infinito, com algumha evocaçom a predominar por vezes no quadro cacofónico, quase sempre tingida de saudades que, no balbordo, já nem sei reconhecer como próprias.

Às vezes surpreende-me onde me levam os produtos espalhados na montra quase baleira da tenda que leva já dous anos a anunciar a liquidaçom por reforma. (Um capacete de obra. Parafusos. Anacos e cotovelos de tubos. Um foucinho. Restos de loja de ferragens espalhados como ao chou).  Há ai anacos da infáncia a jogar na caixa de ferramentas do pai. Há a tristura do desordem das casas deixadas cair. Há os joguetes rotos e a soidade dos maiores. A excitaçom de procurar tesouros e histórias onde nom semelha haver nada.

Teria que parar para fazer o reconto de tudo o que imerge em cada pequeno instante. À tragédia do passo inexorável do tempo, espetáculo ao que já me vou afazendo na altura, suma-se a tragédia a falta de tempo para a olhar. Para esburacar na terra de lembranças e procurar o tesouro, dar-lhe algumhas horas a esses tempos que retornam, afundar nesse comportamento que por anos considerei a minha essência principal.

E também consigo olhar desde certa distáncia essoutra tragédia. Vai resultar que tampouco estou na dança essa. Que, como bem ensina o Buda, sempre acabamos por ser outra cousa que afinal é cousa nengumha.

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Os tempos

(O melhor o tempo esconde… )
Vivo já uns anos assentado em estranhas sensações sobre o passo do tempo. Ao borde dos corenta sinto a vida num raro presente contínuo. A falta de fitos (como comentam por aqui) fai difícil me situar num período concreto, e a perspetiva de andar num presente contínuo que abrange todo o tempo desde que acabei a carreira e comecei a trabalhar aparece como pano de fundo para tudo o resto

E tudo resto conforma um remexido difícil de definir e que tem perplexo. Grandes doses de flashbacks dos anos setenta que nom sei explicar. Ataques de saudades cativos nos que me recreio apenas como a ranhar uma bostela. Indiferências surpreendentes ante a desaparição contínua de fitos físicos, pessoas e paisagens que considerava imprescindíveis para a continuidade. Vertigens ante a velocidade dos dias e a incapacidade de reler. Confiança nas fórmulas que fabrico para i-lo levando (com alegrias). Pensei em escrever sobre isso tudo. Sei lá.

Dentro dessas estranhas sensações, agora mesmo há umha pequena. A ideia de que houvo um tempo no que queria que a vida fosse como umha cançom do Caetano. E que nom cheguei a desistir da ideia. Embora passei a escuitar outras canções, ficam da sua mao todas essas melodias como fogares dos que fum apanhando a forma. Fermosas, intensas, risonhas, apaixonadas pola vida, peganhentas no fundo da cabeça.

Outros tempos tenhem sido os poemas do Benedetti, como lá no começo os Beatles ou Silvio Rodríguez os que marcárom o rumo. Quiçais no fundo a sensaçom seja na realidade um jeito que tenho de me perguntar a mim mesmo qual é a música hoje à que aspiro.

E ao melhor é que nom preciso já de melodias, já descobrim como cantar.

 

 

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A noite escura

É sempre de domingo para segunda. Será a jeito de profecia autocumprida, mas é quando mais difícil resulta dormir. A noite escura é essa na que toca pensar em como os velhos se fam velhos e vam morrendo, a que tem horas para lembrar os amigos perdidos e repassar metodicamente as cicatrizes. Por muito que resista, toca na noite fazer conta de vergonhas e de rancores, traer à mente as moléstias presentes, os temas pendentes do trabalho, os conflitos sem resolver e os medos conhecidos.

Nom há tempo para reler. As lembranças física da infáncia ficam fechadas em caixas e nom as olharemos mais. A paisagens botam-se a perder e o mundo resulta, especialmente durante esses intres de olhos fechados mais incerto do que nunca. As complicações que se albiscam no horizonte som maiores do que em nengum outro momento da semana e amanhá estarei canso e com pouca gana de léria metido de novo num autocarro que há tardar mais do habitual para chegar a um choio menos motivador do que será na terça. Polo geral há calor, ambiente seco, moléstias respiratórias, incomodidades que ajejam desde cada engurra das sabas e ruídos mais altos do habitual da mao dos vezinhos, dos cadelos, da porta do garagem como umha campá do escuro.

Afinal é singelo dormir. Mas há que ter tempo em geral nos dias, momentos perdidos nos que poder tocar as cicatrizes ao acaso de jeito lene. Comprovar o estado dos medos à luz do dia, saber bem onde e como estám e até dar-lhes um agarimo para ficarem tranquilos durante a noite escura, para que nom venham roubar horas ao sono.

 

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O meu jardim proibido

Está a cair o magnólio que passei a olhar toda a minha infáncia. A tenda dos meus pais estava justo enfronte, e botei bem tempo a jogar onda ele (nom à sua sombra, o sol da tarde dava-lhe de fronte e era cedo de manhá que chegava a luz ao chao da praça entre as suas polas) e falar com os cativos vizinhos da zona (amigos, inimigos e essas relações que oscilam entre o ódio e a camaradagem desconfiada da época). Acho que nom havemos de ser muitos os que sabemos dele dum jeito tam íntimo.

Já as polas tenhem chegado a tocar as fachadas todas de arredor, nom é a primeira vez que o podam, e muito. Acho que foram já três ou quatro os recortes, e como nom podia ser doutro jeito, hei jurar que era muito maior em sendo eu cativo, com a forma mais redonda, o curuto mais alto, a folhagem muito mais mesta, toda umha selva de mistério. As primeiras vezes lembro a tristura de sentir que estavam a mutilar algumha cousa minha. Quando se leva pouco vivido, as mudanças tenhem sempre cousas más e tudo se quereria conservar, mesmo que nom fosse necessário nem bom.

Já lhe tenho visto também perder algumha grande pola num temporal, e logo jogar com ela, feita barco de vela para os cativos da praça ou, em virando-a entre todos, transformada em castelo. Acho que ficara mais de duas semanas deitada entre os carros que daquela enchiam o lugar. Eram também habituais as pinhas que faziam de granadas de mao, as flores grandes que caiam e deixavam sentir o seu arrecendo, as folhas no outono a adornar o chao. Ai nasceu, mais que nos livros, a aprendizagem das estações.

Eu olhava para ele. E decato-me de que havia ali um bom feixe de cousas que me devérom definir.

Ai compreendi sem o saber o conceito de jardim, de espaço fechado ao que sempre quigem e nunca puidem acceder. O muro elevado no que medrava espertou em mim degoiro de franquear o proibido à par que a saudade polos mundos perdidos sem remédio que (imagino que também por algumhas outras cousas) me tem acompanhado bem de perto até hoje em diferentes formas. Era a àrvore que via ao ler <i>Folla de Niggle</i>, o lugar que estava condanado a olhar unicamente desde longe, um cenário de fundo para a minha vida no qual nunca poderia penetrar.

Ademais, já estava ai o facto de estar eu fóra e outro dentro. Aqueles outros (sei lá quem, a casa estivo sempre desabitada) que podiam sentar naquela galeria onde eu desejava ficar a ler aquecido polo sol de inverno. Os que podiam subir àquela  grande galha na que se divide, ainda baixo, o tronco (lá pensei também muitas vezes em fugir e fazer casa, mais ainda ao ler O barom rampante). Ai quiçais comecei a nom sentir o mundo como umha unidade de pessoas iguais. Nessas polas puido surgir a ideia de que eu era umha parte, e estava num lugar (abaixo) e outros, que tinham cousas que eu desejava, que podiam ir a esse lugar, eram outra parte e estavam, literalmente, acima da praça, com a sua árvore, na sua galeria, a nos olhar como nunca nos poderiamos olhar nós mesmos, lá a jogar no chao.

Tanto olhava, que se meteu a árvore nos meus sonhos. Ainda há cousa de um mês tenho  visitado na noite esse jardim segredo, cheio de maravilhas. Desta volta, havia umha grande escaleira que descia à praça. Noutras ocasiões havia onda a árvore outra casa, cumha cúpula acristalada onde eu queria ficar. Foi também um dos primeiros sonhos que lembro, desses tam primeiros que tardei muito tempo em discernir se fora sonho ou lembrança. E para mais, sei que se repetiu, quando menos um par de vezes. Estava eu no Renault 4 amarelo da casa, a escuitar a rádio. O carro enfrontado à árvore. Entom aparecia desde o curuto e começava a se achegar cara a mim umha águia, grande de aterradora. Eu agochava-me ao pé dos assentos. E já. Nom devia ter mais de quatro anos, e algo de medo me deixou a respeito do lugar.

Na realidade só olhei umha vez aquele jardim, desde a janela dum amigo que vivia perto, um bocadinho por cima do nível do chao. É claro, nom era tanta cousa como um sonhara. Nom havia fontes, nem erva. Corredores de cimento percorriam o lugar e deixavam pouco espaço para se deitar e ler por ali. Depois, quando instalárom a televisom local no edifício e faziam entrevistas em essa galeria com a que hei de seguir a sonhar até a fim, nom podia deixar de esculcar, a ver se através dos cristais dava albiscado algumha nova cousa daquele espaço.

No mar de tonalidades de granito que era daquela a minha paisagem familiar, dentro dos limites do território de criança, era a árvore a zona verde, o espaço selvagem. Lá escapavam de quando em quando os gatos da casa, e havia que ir chamar por eles. Ali aninhavam as nuvens de estorninhos ao cair a noite, os seus chios música inevitável dos meus primeiros tempos. Tenho ideia de que também as andorinhas que em primavera enchiam a praça atopavam lá acobilho. Mesmo lembro as temporadas que a minha mae me fazia escuitar o moucho que parava lá. E algum cuco, se nom é erro da memória. Era um espaço que partilhávamos ela e mais eu, no final dalguns dias, a fazer comentários sobre a saúde da árvore, os ruídos que saiam dele, os animais novos que podiam aparecer, as flores que já chegavam, os efeitos do temporal que estravam tudo de pinhas, umha conexom com os ciclos da vida.

E agora devo andar meio alheado. Serám os anos vividos, que lhe tiram peso à perda. Ou a consciência de que houvo abondas cousas boas, de que bem podem vir muitas mais, e de que a mágoa de verdade fica para as pessoas. Será que tenho muita vida e gente pola que mirar e que me cuida, e sei que som o importante. Ou virá o consolo por me decatar de que o levo comigo deste jeito. Mas nom tenho por tragédia o perigo da árvore desaparecer. Nom perdo a minha infáncia ao seu carom, porque nom se pode perder algo que nom existe, que é apenas lembrança.

Nom temo o que será de mim sem ela. Tudo muda, e sei que a hei achar de menos se cai, que nom será nada o mesmo. Mas já nom é. Já a praça nom tem carros, mudou duas vezes o desenho e de materiais. Nem há a gente nem a paisagem. Nem eu estou, nem a tenda. E nom tenho muito mais interesse em entrar nesse jardim do que noutro qualquer. Aprendi também das cousas que som mais bonitas na distáncia. E até penso também como será o sol a entrar na manhá até as casas do fundo. Passamos, o magnólio e apenas mais um símbolo da tragédia do passo do tempo, que é a bençom que temos.

 

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A elasticidade de Setembro

Este ano acontece de novo. Setembro afirma-se com força e fai-se enorme. Será esse mundo a conter o alento que contam os chineses, a quinta estaçom que nos domina.
Os dias passam a modo, mesturados de medos, incertidumes, doenças e malestares, mudanças de clima, mortes, nascimentos e momentos de alegria.
Caminha-se o mês a modo, como um páramo povoado de ruínas e de árbores a medrar, fermoso e desvastado
Compre olhar o calendário para crer que ainda imos na metade, com todo o já vivido. Os encontros, os passeios, as tristuras, os planos e as surpresas mesturam-se numha narraçom que nunca agardamos e que nos finca a cada pouco no momento.
As cousas remexem-se e nom deixam de mudar, mas nom sabemos cara a onde.

Acompanha as viradas da vida neste dia um grande cansaço que contribue a demorar ainda mais as horas e os dias. E canda ele, entre o sono, aparece o estranho consolo, a esperança de que pode ser possível levar a vida toda a este ritmo pousado e intenso,
deter dalgum jeito o tempo um bocado
tal e como fam Setembro
e as suas chuvas.

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